Diáspora:Multiculturalismo, afrodescendentes e pensamentos dispersos..
Salve pessoas! Este blog foi criado como meio de construir um campo de diálogo sobre a temática dos estudos culturais, do multiculturalismo e das populações de origem africana no velho continente e na diáspora. Com o tempo tornou-se lugar para conversar com um público amplo sobre temas relativos a causa da igualdade. É um espaço para pensamentos dispersos e, de algum modo, desvinculado dos lugares institucionais que tenho participação. Um forte abraço a todos!
sexta-feira, 27 de abril de 2012
terça-feira, 10 de abril de 2012
Meu discurso de despedida da PROEX-UDESC
"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."
Fernando Pessoa
Pessoas,
Gostaria de lhes escrever algumas linhas a título de despedida e agradecimento. Quando aqui cheguei, em 2008, a convite dos recém-eleitos Professores Sebastião e Heron, sentei naquela cadeira azul com uma montanha de ideias na cabeça e disposição para realizá-las.
Com o tempo fui descobrindo que administrar não é tanto trazer para o "tempo" as divinas e eternas leis da razão, mas simplesmente cuidar das pessoas, observá-las e nelas descobrir o que elas têm de melhor para si mesmas e para a Universidade. Aprendi através do diálogo, por vezes tenso, por vezes generoso, que todo o interesse é legítimo, e cabe ao gestor harmonizá-lo, ou não, de modo a bem servir ao interesse público.
Queria agradecer a cada um(a) de vocês que não só compreenderam, contribuíram, mas se engajaram para tornar realidade uma grande parte daqueles sonhos. Cada um de vocês, estudantes, técnicos(as) e professores(as) colaboraram para reposicionar a UDESC no cenário do ensino superior, corroborando para torná-la um ator político de maior importância para Santa Catarina e para o país.
Por meio da Maratona Cultural de Florianópolis, do Festival Audiovisual do Mercosul, da Operação Rondon, do Programa de Ação Afirmativa, da Semana Ousada de Artes UDESC/UFSC, da Gestão de Riscos e Desastres, dos Jogos dos Servidores da UDESC, dos Jogos Estudantis, do Programa de Assistência Estudantil, nós contribuímos para tornar a UDESC, não apenas uma universidade de qualidade e competente, mas uma instituição que alia atividade acadêmica de excelência com compromisso social; tornamos a IES que Santa Catarina precisa.
Nesta caminhada, queria agradecer especialmente, minha equipe Bete, Balduíno, Fábio, Renildo, Juliana, Eliane, Ivan, Vicente, Cleusa, Mabel, Marlene, Alessandra, Beatriz, Diana, Savana, Francine, Ana Carolina, Marco, André, Roberta, Luize; os que ficaram, e os que se foram: Nanci, Salete, Claudia, Serginho, Hentz, Anderson, Luiz, Nayra, Lin, Camila, Caetano, Fernanda, Tama, Clarice, entre outros. Todos eles companheiros e companheiras de sonhos; aos meus colegas de Equipe Heron, Beatriz,Tomasi, Vinicius, Antônio Sandra, Juliana, Salvador, "Baba" Tomasi,Lucia, Iraci,João Nicolau,Jairo, Marzeli, Amauri, Rosangela, Leandro e Delsi, parceiros com quem aprendi a arte e o poder da diversidade.
Porém, não poderia deixar de fazer um agradecimento especial àquele sem o qual nada teria sido possível, meu chefe e parceiro de primeira hora, Sebastião Iberes Lopes Melo. Sem sua generosidade, tolerância e estímulo, nenhuma de nossas conquistas seria possível. A você, meu Mestre, deixo um abraço com carinho.
Encerro esta etapa de minha vida com a consciência do dever cumprido, com a clareza que certamente não fizemos tudo o que queríamos, tampouco tudo que a Universidade desejava, mas o melhor que podíamos.
Retorno ao Centro de Ciências Humanas e da Educação para o exercício da profissão que escolhi quando vendia frutas nas feiras de Florianópolis: a docência, que afinal nunca deixei de seguir mesmo sem tempo. Retorno para minhas duas lindas famílias: meus alunos e alunas do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e para Cris, Dandara e Amílcar.
Um beijo no coração e o meu muito obrigado!!!
Ilha de Santa Catarina, 10 de abril 2012.
Fernando Pessoa
Pessoas,
Gostaria de lhes escrever algumas linhas a título de despedida e agradecimento. Quando aqui cheguei, em 2008, a convite dos recém-eleitos Professores Sebastião e Heron, sentei naquela cadeira azul com uma montanha de ideias na cabeça e disposição para realizá-las.
Com o tempo fui descobrindo que administrar não é tanto trazer para o "tempo" as divinas e eternas leis da razão, mas simplesmente cuidar das pessoas, observá-las e nelas descobrir o que elas têm de melhor para si mesmas e para a Universidade. Aprendi através do diálogo, por vezes tenso, por vezes generoso, que todo o interesse é legítimo, e cabe ao gestor harmonizá-lo, ou não, de modo a bem servir ao interesse público.
Queria agradecer a cada um(a) de vocês que não só compreenderam, contribuíram, mas se engajaram para tornar realidade uma grande parte daqueles sonhos. Cada um de vocês, estudantes, técnicos(as) e professores(as) colaboraram para reposicionar a UDESC no cenário do ensino superior, corroborando para torná-la um ator político de maior importância para Santa Catarina e para o país.
Por meio da Maratona Cultural de Florianópolis, do Festival Audiovisual do Mercosul, da Operação Rondon, do Programa de Ação Afirmativa, da Semana Ousada de Artes UDESC/UFSC, da Gestão de Riscos e Desastres, dos Jogos dos Servidores da UDESC, dos Jogos Estudantis, do Programa de Assistência Estudantil, nós contribuímos para tornar a UDESC, não apenas uma universidade de qualidade e competente, mas uma instituição que alia atividade acadêmica de excelência com compromisso social; tornamos a IES que Santa Catarina precisa.
Nesta caminhada, queria agradecer especialmente, minha equipe Bete, Balduíno, Fábio, Renildo, Juliana, Eliane, Ivan, Vicente, Cleusa, Mabel, Marlene, Alessandra, Beatriz, Diana, Savana, Francine, Ana Carolina, Marco, André, Roberta, Luize; os que ficaram, e os que se foram: Nanci, Salete, Claudia, Serginho, Hentz, Anderson, Luiz, Nayra, Lin, Camila, Caetano, Fernanda, Tama, Clarice, entre outros. Todos eles companheiros e companheiras de sonhos; aos meus colegas de Equipe Heron, Beatriz,Tomasi, Vinicius, Antônio Sandra, Juliana, Salvador, "Baba" Tomasi,Lucia, Iraci,João Nicolau,Jairo, Marzeli, Amauri, Rosangela, Leandro e Delsi, parceiros com quem aprendi a arte e o poder da diversidade.
Porém, não poderia deixar de fazer um agradecimento especial àquele sem o qual nada teria sido possível, meu chefe e parceiro de primeira hora, Sebastião Iberes Lopes Melo. Sem sua generosidade, tolerância e estímulo, nenhuma de nossas conquistas seria possível. A você, meu Mestre, deixo um abraço com carinho.
Encerro esta etapa de minha vida com a consciência do dever cumprido, com a clareza que certamente não fizemos tudo o que queríamos, tampouco tudo que a Universidade desejava, mas o melhor que podíamos.
Retorno ao Centro de Ciências Humanas e da Educação para o exercício da profissão que escolhi quando vendia frutas nas feiras de Florianópolis: a docência, que afinal nunca deixei de seguir mesmo sem tempo. Retorno para minhas duas lindas famílias: meus alunos e alunas do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e para Cris, Dandara e Amílcar.
Um beijo no coração e o meu muito obrigado!!!
Ilha de Santa Catarina, 10 de abril 2012.
Baumann e Obama - Tradução de Marcelo Medeiros
Para quem curte, uma pérola: um texto de Zygmunt Bauman, inédito em português, sobre os obstáculos e as aparentes opções de Obama (extraido de This Is Not a Diary. Cambridge: Polity Press, 2012):
28 de janeiro de 2011
Sobre mantê-lo do lado de dentro ficando do lado de fora
Poucos meses antes das últimas eleições presidenciais americanas, numa conversa com Giuliano Battiston, eu disse o seguinte em resposta a uma pergunta dele: “Será que a eleição [de Obama] pode ser interpretada como um sinal de que o sistema político americano rompeu definitivamente o vínculo entre demos e ethnos e que os Estados Unidos estão se transformando numa sociedade pós-étnica mais consciente?”:
Obama precisa ter cuidado em não concorrer ao poder em nome das massas “tiranizadas e oprimidas”, que são por esse motivo proclamadas inferiores – e cujas incapacidade, indignidade e infâmia, impostas e estereotipadas, resvalam sobre ele em função de sua classificação etnicamente/racialmente herdada/atribuída. E ele não está concorrendo ao poder na onda de uma rebelião promovida pelos “tiranizados e oprimidos” ou por um “movimento social/político”, como seu porta-voz, plenipotenciário e vingador. O que se pretende provar com seu progresso e ascensão – como provavelmente ocorrerá – é que um estigma coletivo pode ser tirado das costas de indivíduos selecionados; em outras palavras, que alguns indivíduos das categorias oprimidas e discriminadas possuem qualidades que “ultrapassam” sua participação numa inferioridade coletiva, categorial; e que essas qualidades podem ser equivalentes ou mesmo superiores àquelas apresentadas por concorrentes que não sofram o peso do estigma categorial. Esse fenômeno não invalida necessariamente o pressuposto da inferioridade categorial. Deveria antes ser percebido (e o é por muitos) como reafirmação perversa do pressuposto: eis aqui um indivíduo que, quase ao estilo do Barão de Münchhausen, conseguiu se erguer por iniciativa própria: mediante seus talentos e sua força individuais, não por seu pertencimento a determinado grupo, mas apesar dele – e provando, no mesmo sentido, nem tanto o valor e a virtude amplamente subestimados de “seu povo”, mas a tolerância e a generosidade de seus superiores sociais, cuja superioridade se manifesta em estarem prontos a permitir que indivíduos ambiciosos e talentosos da categoria inferior se juntem a eles e tentem chegar ao topo, assim como a suprimir muitas das objeções generalizadas à aceitação social e política dos que o conseguem. Isso não significa, porém, que o progresso dos indivíduos que agarraram uma oportunidade assim vá elevar a categoria como um todo, a “categoria em si”, de sua posição social inferior e abrir perspectivas de vida mais amplas para todos os seus membros. O longo governo semiditatorial de Margaret Thatcher não trouxe a igualdade social para as mulheres, o que provou foi que algumas mulheres podem derrotar os homens em seu próprio jogo machista. Muitos dos judeus que conseguiram emergir dos guetos no século XIX e passar por alemães (ou pelo menos assim tentavam acreditar) fizeram muito pouco por seus irmãos e irmãs, atribuídos ou imputados, deixados para trás, no sentido de tirá-los da pobreza e protegê-los da discriminação jurídica e social. E tal como a promoção pessoal de Margaret Thatcher não tornou menos “masculino” o establishment britânico, a carreira dos fugitivos do gueto judaico não tornou a Alemanha menos nacionalista. Nem tampouco encurtou a distância entre discriminadores e discriminados. Na verdade, ocorreu o contrário...
Muitos dos ideólogos e praticantes mais barulhentos e dedicados das variedades mais radicais dos nacionalismos promissores do século XX eram recém-chegados de “minorias étnicas” ou estrangeiros “naturalizados” (incluindo Stalin e Hitler). Um judeu, Benjamin Disraeli, solidificou e fortaleceu o Império Britânico. O grito de guerra dos “assimilados” era “tudo que você pode fazer, eu posso fazer melhor” – a promessa e determinação de ser mais católico que o Papa, ou mais alemão que os alemães, mais polonês que os poloneses ou mais russo que os russos em termos de enriquecer suas respectivas culturas e promover seus respectivos “interesses nacionais” (feitos que frequentemente eram usados contra eles, tomados como provas de sua duplicidade e de suas intenções insidiosas). Entre todas as outras coisas que eles tendiam a “fazer melhor” do que os nativos estava também (para muitos dos assimilados) sua indiferença à sorte e aos interesses da sua “comunidade de origem” que caracterizava os pensamentos e ações dos “nativos”...
Cerca de um ano depois de Obama se mudar para a Casa Branca, quando minhas primeiras premonições se haviam transformado em observações, eu acrescentei (em uma das cartas publicadas no La Repubblica) os seguintes comentários de Naomi Klein:
Os negros e latinos que não fazem parte da elite estão perdendo terreno de modo considerável, com suas casas e empregos escapando de suas mãos a uma taxa muito mais alta do que os dos brancos. Até agora, Obama não tem se disposto a adotar políticas de cunho específico para fechar essa brecha que nunca para de se ampliar. O resultado pode muito bem deixar as minorias no pior dos mundos: a dor de uma reação racista em ampla escala sem os benefícios de políticas capazes de amenizar suas dificuldades quotidianas.
Outro ano se passou e muito mais água rolou pelas pontes do Rio Potomac, mas basicamente foram as mesmas as mensagens transmitidas do Salão Oval para os guetos negros dos Estados Unidos. Mensagens com palavras, mas também silenciosas... Como observa Charles M. Blow no New York Times de hoje: “Foi a segunda vez desde o discurso do Estado da União proferido por Harry S. Truman em 1948 que um discurso como esse, proferido por um presidente democrata, não inclui uma única menção à pobreza ou à condição dos pobres.” Poucas dúvidas restam: a esperança dos destituídos, oprimidos e humilhados voltou suas costas àqueles que o elegeram (ou seja, 95 por cento dos eleitores negros e 67 por cento dos hispânicos; 73 por cento das pessoas que ganham menos de 15 mil dólares por ano, 60 por cento dos que ganham entre cinco mil e 30 mil, e 55 por cento daqueles com rendimentos entre 30 mil e 50 mil dólares). Ele chutou para longe a escada com que chegou ao gabinete em que geralmente se redigem os discursos do Estado da União. Brian Miller, diretor-executivo do grupo de pesquisa United for a Fair Economy [Unidos por uma Economia Justa], comenta a mensagem que Obama deixou fora de seu discurso, mesmo que sua forma de governar os Estados Unidos a transmitisse com toda a clareza àqueles que o ajudaram a aceder ao poder: “Como 42 por cento dos negros e 37 por cento dos latinos carecem do dinheiro necessário para pagar as despesas mínimas com moradia por mais que três meses se ficarem desempregados, cortar os programas de assistência pública terá impactos devastadores sobre os trabalhadores negros e latinos.”
“Minha fé nele [o Presidente] como defensor ardente dos pobres e desprivilegiados entrou novamente em queda livre... [O Presidente] parece estar se afastando, frequentemente a toda velocidade, das pessoas que antes o apoiavam” – assim Charles Blow resume seus próprios comentários. E, entristecido, faz as perguntas que agora deve considerar, tal como eu, puramente retóricas:
Para os pobres, este é o dilema de Obama. Ele foi obviamente a melhor escolha em 2008. E, a julgar pelo atual elenco de contendores republicanos, poderá ser a melhor escolha em 2012. Mas será que isso lhe dá licença para deixar de lado a responsabilidade moral perante seus devotados eleitores? Será que eles podem e devem tomar seu desprezo como uma consequência necessária da guerra política ao dedicar seus esforços a se religar ao centro e se reconectar àqueles cuja opinião sobre ele vacilam entre o desprezo num dia ruim e a tolerância num dia bom? Será que mantê-lo na Casa Branca implica mantê-los nas sombras?
28 de janeiro de 2011
Sobre mantê-lo do lado de dentro ficando do lado de fora
Poucos meses antes das últimas eleições presidenciais americanas, numa conversa com Giuliano Battiston, eu disse o seguinte em resposta a uma pergunta dele: “Será que a eleição [de Obama] pode ser interpretada como um sinal de que o sistema político americano rompeu definitivamente o vínculo entre demos e ethnos e que os Estados Unidos estão se transformando numa sociedade pós-étnica mais consciente?”:
Obama precisa ter cuidado em não concorrer ao poder em nome das massas “tiranizadas e oprimidas”, que são por esse motivo proclamadas inferiores – e cujas incapacidade, indignidade e infâmia, impostas e estereotipadas, resvalam sobre ele em função de sua classificação etnicamente/racialmente herdada/atribuída. E ele não está concorrendo ao poder na onda de uma rebelião promovida pelos “tiranizados e oprimidos” ou por um “movimento social/político”, como seu porta-voz, plenipotenciário e vingador. O que se pretende provar com seu progresso e ascensão – como provavelmente ocorrerá – é que um estigma coletivo pode ser tirado das costas de indivíduos selecionados; em outras palavras, que alguns indivíduos das categorias oprimidas e discriminadas possuem qualidades que “ultrapassam” sua participação numa inferioridade coletiva, categorial; e que essas qualidades podem ser equivalentes ou mesmo superiores àquelas apresentadas por concorrentes que não sofram o peso do estigma categorial. Esse fenômeno não invalida necessariamente o pressuposto da inferioridade categorial. Deveria antes ser percebido (e o é por muitos) como reafirmação perversa do pressuposto: eis aqui um indivíduo que, quase ao estilo do Barão de Münchhausen, conseguiu se erguer por iniciativa própria: mediante seus talentos e sua força individuais, não por seu pertencimento a determinado grupo, mas apesar dele – e provando, no mesmo sentido, nem tanto o valor e a virtude amplamente subestimados de “seu povo”, mas a tolerância e a generosidade de seus superiores sociais, cuja superioridade se manifesta em estarem prontos a permitir que indivíduos ambiciosos e talentosos da categoria inferior se juntem a eles e tentem chegar ao topo, assim como a suprimir muitas das objeções generalizadas à aceitação social e política dos que o conseguem. Isso não significa, porém, que o progresso dos indivíduos que agarraram uma oportunidade assim vá elevar a categoria como um todo, a “categoria em si”, de sua posição social inferior e abrir perspectivas de vida mais amplas para todos os seus membros. O longo governo semiditatorial de Margaret Thatcher não trouxe a igualdade social para as mulheres, o que provou foi que algumas mulheres podem derrotar os homens em seu próprio jogo machista. Muitos dos judeus que conseguiram emergir dos guetos no século XIX e passar por alemães (ou pelo menos assim tentavam acreditar) fizeram muito pouco por seus irmãos e irmãs, atribuídos ou imputados, deixados para trás, no sentido de tirá-los da pobreza e protegê-los da discriminação jurídica e social. E tal como a promoção pessoal de Margaret Thatcher não tornou menos “masculino” o establishment britânico, a carreira dos fugitivos do gueto judaico não tornou a Alemanha menos nacionalista. Nem tampouco encurtou a distância entre discriminadores e discriminados. Na verdade, ocorreu o contrário...
Muitos dos ideólogos e praticantes mais barulhentos e dedicados das variedades mais radicais dos nacionalismos promissores do século XX eram recém-chegados de “minorias étnicas” ou estrangeiros “naturalizados” (incluindo Stalin e Hitler). Um judeu, Benjamin Disraeli, solidificou e fortaleceu o Império Britânico. O grito de guerra dos “assimilados” era “tudo que você pode fazer, eu posso fazer melhor” – a promessa e determinação de ser mais católico que o Papa, ou mais alemão que os alemães, mais polonês que os poloneses ou mais russo que os russos em termos de enriquecer suas respectivas culturas e promover seus respectivos “interesses nacionais” (feitos que frequentemente eram usados contra eles, tomados como provas de sua duplicidade e de suas intenções insidiosas). Entre todas as outras coisas que eles tendiam a “fazer melhor” do que os nativos estava também (para muitos dos assimilados) sua indiferença à sorte e aos interesses da sua “comunidade de origem” que caracterizava os pensamentos e ações dos “nativos”...
Cerca de um ano depois de Obama se mudar para a Casa Branca, quando minhas primeiras premonições se haviam transformado em observações, eu acrescentei (em uma das cartas publicadas no La Repubblica) os seguintes comentários de Naomi Klein:
Os negros e latinos que não fazem parte da elite estão perdendo terreno de modo considerável, com suas casas e empregos escapando de suas mãos a uma taxa muito mais alta do que os dos brancos. Até agora, Obama não tem se disposto a adotar políticas de cunho específico para fechar essa brecha que nunca para de se ampliar. O resultado pode muito bem deixar as minorias no pior dos mundos: a dor de uma reação racista em ampla escala sem os benefícios de políticas capazes de amenizar suas dificuldades quotidianas.
Outro ano se passou e muito mais água rolou pelas pontes do Rio Potomac, mas basicamente foram as mesmas as mensagens transmitidas do Salão Oval para os guetos negros dos Estados Unidos. Mensagens com palavras, mas também silenciosas... Como observa Charles M. Blow no New York Times de hoje: “Foi a segunda vez desde o discurso do Estado da União proferido por Harry S. Truman em 1948 que um discurso como esse, proferido por um presidente democrata, não inclui uma única menção à pobreza ou à condição dos pobres.” Poucas dúvidas restam: a esperança dos destituídos, oprimidos e humilhados voltou suas costas àqueles que o elegeram (ou seja, 95 por cento dos eleitores negros e 67 por cento dos hispânicos; 73 por cento das pessoas que ganham menos de 15 mil dólares por ano, 60 por cento dos que ganham entre cinco mil e 30 mil, e 55 por cento daqueles com rendimentos entre 30 mil e 50 mil dólares). Ele chutou para longe a escada com que chegou ao gabinete em que geralmente se redigem os discursos do Estado da União. Brian Miller, diretor-executivo do grupo de pesquisa United for a Fair Economy [Unidos por uma Economia Justa], comenta a mensagem que Obama deixou fora de seu discurso, mesmo que sua forma de governar os Estados Unidos a transmitisse com toda a clareza àqueles que o ajudaram a aceder ao poder: “Como 42 por cento dos negros e 37 por cento dos latinos carecem do dinheiro necessário para pagar as despesas mínimas com moradia por mais que três meses se ficarem desempregados, cortar os programas de assistência pública terá impactos devastadores sobre os trabalhadores negros e latinos.”
“Minha fé nele [o Presidente] como defensor ardente dos pobres e desprivilegiados entrou novamente em queda livre... [O Presidente] parece estar se afastando, frequentemente a toda velocidade, das pessoas que antes o apoiavam” – assim Charles Blow resume seus próprios comentários. E, entristecido, faz as perguntas que agora deve considerar, tal como eu, puramente retóricas:
Para os pobres, este é o dilema de Obama. Ele foi obviamente a melhor escolha em 2008. E, a julgar pelo atual elenco de contendores republicanos, poderá ser a melhor escolha em 2012. Mas será que isso lhe dá licença para deixar de lado a responsabilidade moral perante seus devotados eleitores? Será que eles podem e devem tomar seu desprezo como uma consequência necessária da guerra política ao dedicar seus esforços a se religar ao centro e se reconectar àqueles cuja opinião sobre ele vacilam entre o desprezo num dia ruim e a tolerância num dia bom? Será que mantê-lo na Casa Branca implica mantê-los nas sombras?
sábado, 10 de março de 2012
Caminos caminantes y pasajeros: RascunhosBreves os amoresLongas as despedidasD...
Caminos caminantes y pasajeros: Rascunhos
Breves os amores
Longas as despedidas
D...: Rascunhos Breves os amores Longas as despedidas Dessa tristeza que hoje padeço Da tristeza em que me reconheço Já me vou longe Por e...
Breves os amores
Longas as despedidas
D...: Rascunhos Breves os amores Longas as despedidas Dessa tristeza que hoje padeço Da tristeza em que me reconheço Já me vou longe Por e...
Assinar:
Postagens (Atom)