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sábado, 30 de janeiro de 2016

2016 - Marcos para atuação do Movimento Negro no Brasil



Do Portal Áfricas

O ano de 2015 foi  terrível para a causa democrática em nosso país. De um lado, uma Casa Grande sem votos que se cansou de perder eleições e resolveu com visível concertação externa, produzir uma crise institucional sem precedentes, destruindo a estabilidade econômica e  disseminando um ódio político poucas vezes visto na História brasileira. De outro lado, ferido gravemente pelo envolvimento/conivência com casos de corrupção, o Partido dos Trabalhadores e a coalizão governista, parecem com dificuldades de unir o campo democrático e travar o debate no parlamento e nas ruas, na defesa de um legado de mudanças importantes para o Brasil e de aprofundamento do processos de inserção social e política da Senzala.
Sob a batuta de Dilma Roussef, o Governo Federal parece perdido, deixando-se muitas vezes pautar por uma agenda conservadora, na esperança de agradar a Casa Grande. Como disse o Presidente Lula, não agradou e perdeu a nossa gente. As políticas de austeridade fiscal com a finalidade de produção de uma poupança, encheu as burras dos rentistas com mais quinhentos bilhões de reais, sufocou o crédito para o mercado interno, produziu desemprego, conteve a política de distribuição de renda.Ao retirar bilhões da Educação, restringiu ações de sucesso, símbolos de um governo que se preocupa com os grupos subalternos.
Do ponto de vista da diáspora africana organizada, o Movimento Negro, tal postura significou redução, bloqueios, não execução de políticas duramente pactuadas no interior dos espaços de controle social do Governo Federal. Para nós foi um ano de derrotas, refletida na  não indicação de um negro/negra para ministro do Supremo Tribunal Federal, na subrepresentação da população negra nos lugares de comando do poder executivo, em especial, a perda de status da SEPPIR. De fato é um governo para nós, mas não conosco.
Entretanto, o que parecia ruim pode ser lido como uma oportunidade histórica para o movimento negro. Dilma Rousseff, nos deu a possibilidade de quebrarmos a subordinação política e ideológica com os partidos da esquerda branca e de questionarmos o longo processo de cooptação de lideranças e entidades negras, tornando-as ONGS, responsáveis pela execução de políticas públicas não prioritárias para o governo. Estratégia, verdade seja dita, construída nos anos 1990, sob orientação do Banco Mundial. A presidenta com um canetaço apontou o fracasso de uma estratégia de luta institucional sem o suporte e envolvimentos dos grupos populares.
Todos nós, brasileiros e brasileiras continuaremos apoiando o respeito as instituições democráticas, representada na continuidade de um governo legitimamente eleito. No entanto, nós negros precisamos repensar nossa ação. Refletirmos onde nós contribuímos para a nossa fragilidade política e pouca legitimação, que torna possível que questões importantes sobre nossas vidas sejam tomada por outras pessoas  sem nos consultar. 
Pode parecer acadêmico demais para alguns, mas a melhor forma de construir uma unidade é debatendo visões de mundo, as análises de conjuntura e as posturas ideológicas. Afinal, a opção pela luta institucional também está embasada numa perspectiva ideológica. 
Está mais do que na hora de compreendermos o momento vivido a partir de um balanço de trinta anos de experiência democrática e mais uma década de um governo social-democrata, representado por Lula e Dilma Roussef.
Gostaria de acrescentar um termo que falta: colonialismo. Nosso país nunca passou a limpo sua herança colonial, o que faz com que os privilégios dos colonos e seus descendentes expresso no exercício de uma branquitude só agora começam a ser questionados. Neste mundo, nossa inserção se dá de forma individual e na medida que dominamos os códigos da cultura ocidental. Leia-se, na medida em que nos tornamos assimilados. Assim, nossa própria resistência se dá nos quadros desse modo de apreensão e expressão do real, no controle de sua linguagem. Sem perceber nos tornamos para além de eurófonos, eurófilos e, parafraseando Kwame Appiah, herdamos determinados antolhos intelectuais que nos impedem de ver qualquer virtude nas massas negras, sua violência como código de honra, sua cultura do baixo ventre, sua paixão pelo pagode, pagode baiano e funk, como me lembrou Ivy Guedes . A maior evidência disto, como todo assimilado é o gosto de uma parte significativa da liderança negra por homens e mulheres brancas para constituir suas famílias e a aceitação tácita dos brancos de esquerda como direção e orientação da ação política.
Avançar na direção contrária exigirá capacidade de articulação e coordenação do Movimento Negro, de modo a termos nossas próprias agendas e não sermos pautados pela esquerda branca. Neste sentido, as reuniões da Convergência Nacional  Anti-Racista, reunindo as principais entidades do movimento negro (Salvador, dezembro de 2015,  Porto Alegre, janeiro de 2016), constituem a oportunidade, por meio do exercício da paciência, de estabelecer laços de confiança que  nos possibilite pactuar agendas e dirimir controvérsias. Por outro lado, o Fórum de Promoção de Igualdade Racial (FOPIR), reunindo as principais organizações não governamentais anti-racistas, em especial, as feministas negras, com sua vasta experiência internacional, de diálogo com agenciais multilaterais, de clareza estratégica da comunicação e capacidade de advocacy, pode-se constituir numa plataforma chave para o debate com a opinião pública e a qualificação da ação do Movimento Negro. 
Segundo, nós, militantes antirracistas, necessitamos nos apropriar do patrimônio cultural produzidos autonomamente pelos afrodescendentes: samba, escolas de samba, terreiros, congás, maracatús, cacumbís, cordões, jongos, congadas,  sociedade recreativas, irmandades, territórios e outros lugares de vivência cultural onde estes inventam e reinventam  modos de ser e estar no mundo, baseados em nossas memórias, nossas linguagens, nossas cosmovisão e cosmogonia. Lugares furtivos, onde, na falta de um outro termo, nos movemos baseadas em estruturas civilizatórias africanas. 
Por fim, como já disse alguém, nós precisamos estar presentes no cotidiano de nossas gente, no momentos de suas dificuldades e sofrimentos, de modo a construir uma empatia entre o MN e os afros. O que aprendi com Mandela, Angela Davis, ML King e Malcom X, é a que legitimação institucional se dá com o povo na rua sustentando a liderança. Vamos avançar e consolidar estas conquistas quando os afros entenderem que só é possível transformar suas vidas por meio da luta do movimento Negro.

Ilha de Santa Catarina, janeiro de 2016

Paulino Cardoso
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